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Radio Eldorado: Mais um desperdício do Grupo Estado

  • Writer: Adhemar Altieri
    Adhemar Altieri
  • 4 hours ago
  • 11 min read

Por Adhemar Altieri*



Minha vida profissional começou no rádio, ainda no primeiro ano do curso de Jornalismo no Humber College, em Toronto, no Canadá. Durante palestra de um dos maiores nomes do jornalismo canadense, W. Tayler Parnaby, fiz uma pergunta e me dirigi a ele pelo apelido, ‘Hap’. Os colegas de classe acharam temerário, mas eu havia pesquisado tudo sobre ele e sabia que ninguém o chamava de outra forma.


Pelo jeito ele gostou. Me chamou ao final da palestra e convidou para visitar a 590/CKEY, onde ele dirigia o Jornalismo. Era uma das principais emissoras jornalísticas do Canadá, sede da maior rede nacional de rádio, a Newsradio, associada à maior das redes americanas, a CBS News.


W. Tayler 'Hap' Parnaby, um dos maiores do jornalismo do Canadá
W. Tayler 'Hap' Parnaby, um dos maiores do jornalismo do Canadá

Ao final da visita, Hap me convidou para estagiar na CKEY, sem remuneração. Um luxo para quem ainda estava no primeiro ano na faculdade. Aceitei correndo e ele logo virou meu primeiro chefe: o estágio virou emprego.


A faculdade era em tempo integral, 8 aulas por dia. Eu trabalhava na rádio das 5 às 8 da manhã, seguia para a primeira aula às 9, saia da última aula às 4 da tarde e retomava o trabalho das 5 às 8 da noite, muitas vezes até bem mais tarde. Quando me formei, já tinha escritório na prefeitura de Toronto e era o responsável pela cobertura política da cidade.


Era o início dos anos 80, e eu, prestes a me casar, já flertava com a ideia de regressar ao Brasil. Estava claro que haveria uma transição, da ditadura militar de volta a um governo civil, e tudo apontava para uma transição pacífica. Eu queria estar no Brasil para acompanhar esse momento. Nas visitas que fazia aos familiares, ouvia todas as rádios para entender o que havia no ar em São Paulo, e a que me chamava atenção, me intrigava mesmo, era a Rádio Eldorado nos 700 Khz AM.


A programação tinha inúmeras peculiaridades, práticas que marcaram época em outros tempos mas soavam antiquadas, às vezes bizarras. Eu me perguntava como uma emissora que pertence ao Estadão pode caminhar tão distante da modernidade, longe do que eu conhecia e praticava no Canadá, e pela rede Newsradio participando da poderosa CBS News nos Estados Unidos, como correspondente. Tinha algo muito errado ali... a rádio do Estadão teria que ser exemplar na prática do Jornalismo, nada menos que isso.


Posts e foto da manifestação no vão do MASP, na Avenida Paulista, pedindo a permanência da Rádio Eldorado
Posts e foto da manifestação no vão do MASP, na Avenida Paulista, pedindo a permanência da Rádio Eldorado

Comecei a entender o que ouvia na Eldorado em meu primeiro contato com o Estadão. Antes da volta ao Brasil, fiz uma carta para o então presidente do Grupo, José Vieira de Carvalho Mesquita, o Dr. Juca. Não sabia o que esperar, será que responderiam? Expliquei quem eu era, o que fazia, que estava regressando ao Brasil e queria trabalhar na Rádio Eldorado. Caí sentado quando recebi no Canadá carta em envelope e papel timbrados da presidência do Estadão. Ele respondeu pedindo que eu marcasse uma visita assim que chegasse ao país. ‘Procurar por Dona Karina’, a então assistente da presidência.


O que seria uma reunião rápida virou uma conversa de três horas e vários cafezinhos, extremamente agradável, ele fazendo muitas perguntas e contando detalhes que eu, há anos fora do Brasil, não conhecia sobre o Estadão e a Eldorado. Fez várias referências ao ‘meu irmão Carlão’, o Carlão Mesquita, grande entusiasta pela Eldorado na família, que havia falecido. Quando encerramos, ouvi do Dr. Juca uma frase que só fui entender muito depois, e que fica ainda mais clara agora, com o encerramento das transmissões da Rádio Eldorado no dia 14 de maio.


Me acompanhando até a porta da sala, ele colocou a mão em meu ombro e disse: “Nós entendemos de jornal, de rádio não sabemos quase nada. Vamos continuar em contato e logo vamos acabar trabalhando juntos”. O ‘logo’ levou mais de um ano para acontecer. Recém-casado e retornando ao país, eu tinha que trabalhar e fui para a Rede Globo como repórter, por recomendação do então diretor do escritório da Globo em Nova York, Hélio Costa, que conhecia meu trabalho pela CBS News. Ele fez uma carta para o responsável pelo Jornalismo da Globo em São Paulo, Woile Guimarães, que virou meu primeiro chefe no Brasil e é, até hoje, um grande e querido amigo.


Edgar Gonçalves, primeiro funcionário da Rádio Eldorado contratado em 1958, era um arquivo vivo da emissora e guardião de sua extensa discoteca. Permaneceu na Eldorado até outubro de 2025, quando faleceu aos 83 anos
Edgar Gonçalves, primeiro funcionário da Rádio Eldorado contratado em 1958, era um arquivo vivo da emissora e guardião de sua extensa discoteca. Permaneceu na Eldorado até outubro de 2025, quando faleceu aos 83 anos

Na Globo, quando saia com as equipes de reportagem nas Veraneios prata, eu pedia para sintonizar o rádio na Eldorado, e todos me olhavam como se fosse de outro planeta. Por quê a Eldorado? “Nessa rádio não tem nada, pega muito mal”, diziam. “É a rádio do Estadão”, como se isso significasse que não poderia ser uma boa rádio. Isso só fazia crescer a minha vontade de entrar lá e entender, afinal, por quê a rádio do Estadão era daquela forma, algo estacionado no tempo.


Um dia decidi fazer outra carta para o Dr. Juca, perguntando se ainda havia interesse no que discutimos naquela conversa há mais de um ano, em 1981. Depois do trabalho na Globo, fui até a casa dele entregar a carta e nessas horas, estar no ar regularmente na Globo tinha suas vantagens. O segurança com uniforme do Estadão me viu estacionando na frente da casa, veio ver quem era naquela Variant laranja velha, me reconheceu e disse: “Pois não seu Adhemar”. Aproveitei o embalo, entreguei a carta a ele e disse para dar na mão do Dr. Juca quando ele chegasse em casa. “Pode contar comigo!” ele disse.


No dia seguinte, Dona Karina me ligou com o seguinte recado do Dr. Juca: ligue na Eldorado e procure o João Lara Mesquita. Marquei, conversamos e acertamos no mesmo dia. Entreguei minha carta de demissão na Globo para surpresa geral. Os chefes perguntavam se eu estava louco, pois realmente ninguém se demitia da Globo, menos ainda para ir para uma rádio. Foram várias insinuações de que eu estava perdendo tempo pois nada aconteceria na Eldorado...


Mas era o momento certo. Demorou para acontecer porque o Estadão aguardava a volta de João Lara, que estava estudando música em Nova York, para assumir a rádio. E com ele lá, as coisas começaram a acontecer em ritmo acelerado, recuperando muito tempo perdido – tudo com recursos limitadíssimos, com problemas enormes herdados dos anos de inércia mas também muito empenho e criatividade das pessoas que foram sendo contratadas. O João entendeu, abraçou o desafio e liderou uma reviravolta – era, literalmente, uma nova emissora que nascia e esse era o clima interno. Era uma missão e a grande maioria dos envolvidos comprou a ideia.


João Lara Mesquita em sua sala na Rádio Eldorado, quando a emissora era localizada na Rua Pires da Mota, no bairro da Aclimação
João Lara Mesquita em sua sala na Rádio Eldorado, quando a emissora era localizada na Rua Pires da Mota, no bairro da Aclimação

Participar daquele processo foi uma satisfação incomparável, certamente uma das experiências mais ricas que tive na vida profissional. Era a realização de um objetivo, o desejo de eliminar algo que para mim não fazia qualquer sentido. Foram inúmeras conquistas e mesmo os pequenos avanços eram comemorados. Não podíamos comprar carros para a reportagem e o Departamento Comercial conseguiu permutar dois Fiat 147, primeiras viaturas da Eldorado. Não podíamos comprar máquinas para criar um estúdio de gravação e um dia, o engenheiro João Eduardo Ferreira, o mesmo que conseguiu corrigir o sinal da emissora em São Paulo, abriu uma sala empilhada com equipamentos antigos e encontrou duas máquinas de rolo, Ampex, antigas. Com alguns reparos elas voltaram a funcionar e assim nasceu a primeira central técnica da Eldorado. As duas máquinas, que pareciam lavadoras de roupa, acabaram apelidadas de ‘Brastemp’ e ‘Lavínia’, as duas principais marcas de lava-roupas da época.


Acabamos com a piada sobre a Eldorado ser a única rádio no mundo com a redação em outro bairro. Sim, os redatores ficavam na sede do Estadão e a rádio, na Rua Major Quedinho, no antigo prédio do Estadão que agora abrigava o Hotel Jaraguá – por motivos incompreensíveis, só a Eldorado permaneceu, no sétimo andar, quando o Estadão se mudou para a nova sede, na Marginal do Rio Tietê. Deixar a Eldorado para trás explica muita coisa sobre o que acontece agora.


Partimos para as primeiras grandes coberturas naquela fase, a ponto de criarmos nossa própria apuração para eleições, com estudantes contratados passando resultados por telefone para abastecer o sistema – isto, bem antes de os tribunais eleitorais entregarem resultados em tempo real como já fazem há vários anos. Criamos a maior rede de correspondentes internacionais de qualquer veículo brasileiro, inclusive os jornais impressos e redes de televisão – no auge, chegamos a 14 correspondentes em grandes cidades pelo mundo.


Em muitos aspectos, a Eldorado fez antes o que hoje é considerado essencial em muitas frentes. Quando contratamos repórteres pela primeira vez na história da emissora, foram duas mulheres: Miriam Castro e Roseli Tardelli, que depois foi apresentadora do programa Roda Viva da TV Cultura, e hoje dirige a Agência de Notícias da Aids, referência para informações confiáveis sobre o HIV. Isso em uma emissora que não colocava mulheres no ar. Ninguém sabia muito bem o motivo disso.


Quando criamos o cargo de chefe de reportagem, a primeira contratada foi Sandra Guerra, que deixou a TV Cultura para ser a primeira mulher em cargo de chefia na história da Eldorado – hoje ela é uma renomada autora e consultora, especializada em governança corporativa, com passagens como conselheira em empresas do porte da Vale. Não por acaso, a Eldorado adotou em suas campanhas da época a frase ‘Liderando Tendências’.

Parte das atuais instalações da Rádio Eldorado, na sede do Grupo Estado na Zona Norte de São Paulo
Parte das atuais instalações da Rádio Eldorado, na sede do Grupo Estado na Zona Norte de São Paulo


Mas foi quando partimos para tentar integrar a Eldorado às outras estruturas informativas da empresa – Estadão, Jornal da Tarde e Agência Estado, que me lembrava sempre das palavras do Dr. Juca, sobre a empresa entender de jornais impressos e pouco de rádio. Conseguimos atrair vários profissionais das outras empresas do Grupo e das sucursais nas principais cidades do país, que se tornaram colaboradores da Eldorado. Mas isso exigiu muito tato para driblar as preocupações que vários tinham, sobre como seriam percebidos ‘na Marginal’ por colaborar com a Eldorado. Poucos abriam o jogo sobre isso, mas era perceptível o desconforto. Havia pessoas que achavam a rádio pretensiosa, por querer chegar com as informações ‘antes do Estadão’, como se não fosse exatamente esse o objetivo do rádiojornalismo.


Renomados profissionais do Grupo Estado atuavam em outras emissoras de rádio naquele período. Conversando com o João Lara, sempre concluíamos que aquilo era um desprestígio para a Eldorado e precisava mudar. Aos poucos, muitos desses profissionais vieram para a Eldorado, sempre às custas de muita conversa e cuidado para preservar relacionamentos, especialmente no Estadão. Assim, vieram para a Eldorado Percival de Souza, Marco Antonio Rocha, Celso Ming, José Márcio Mendonça, Marcos Wilson, Mário Marinho, Carlos Chagas, Roberto Avallone, Castilho de Andrade e inúmeros outros talentos de alto calibre.


Com o tempo, o período que considero estruturante da Eldorado na década de 80 evoluiu e forneceu a plataforma para vários saltos importantes que ocorreram nos anos seguintes. Deixei a Eldorado em 1987 para fazer o mestrado em Jornalismo nos Estados Unidos, acabei retornando ao Jornalismo canadense e em 1997, quando já pensava em retornar novamente ao Brasil, veio um novo chamado do João Lara Mesquita. Voltei ao país e foram mais quatro anos, já com a rádio bem mais estruturada e agora no bairro da Aclimação, mas a base ainda era aquela criada nos anos 80.


Foi mais um período muito rico, com a consolidação do ‘Ouvinte Repórter’, grandes coberturas nas estradas durante o verão com o ‘Estação Férias’ e a ‘Força Aérea Eldorado’ com até três helicópteros nos céus simultaneamente, a introdução de séries de reportagens e parcerias exclusivas no Brasil com a BBC de Londres e o Wall Street Journal. De 1997 a 2001, a Eldorado conquistou todos os principais prêmios existentes no Brasil para o Jornalismo de rádio, pelo menos uma vez cada. Conquistamos, entre outros, o APCA de melhor Jornalismo do ano duas vezes, APCA de melhor programa jornalístico para o ‘De Olho no Mundo’, co-produção com a BBC, o Wladimir Herzog e o Prêmio Embratel. Foram 14 prêmios entre 1997 e 2001.


Ao longo do tempo, marcaram época grandes iniciativas como a campanha pela despoluição do Rio Tietê, que gerou o maior abaixo-assinado para uma questão ambiental do Brasil com mais de um milhão de assinaturas – isto antes das facilidades que hoje existem para abaixo-assinados na internet. E o excelente trabalho de conscientização contra o absurdo que é a ‘Vóz do Brasil’, um resquício de autoritarismo que só contribuiu para prejudicar o meio rádio brasileiro e que, estranhamente, continua destruindo valor. Muitas emissoras aderiram à campanha mas só a Eldorado falava com clareza contra essa verdadeira excrescência. Iniciativas lideradas com muita convicção pelo João Lara Mesquita.


Pessoalmente, guardo com muito orgulho a cobertura feita pela Eldorado da votação da emenda das ‘Diretas Já’, a Dante de Oliveira. Mesmo com ordens do governo para que os acontecimentos em Brasília não fossem noticiados, a Eldorado foi a única que desafiou a tentativa de censura, transmitindo de dentro da redação do Jornal da Tarde com informações enviadas por nossos colaboradores em Brasília. Enquanto o General Newton Cruz dava tiros em Brasília tentando inibir os buzinaços contra o regime militar, mesmo com ameaças de retirada da emissora do ar, a Eldorado manteve a cobertura e a segurança foi reforçada nas entradas da emissora, da sede do Estadão e no transmissor.


107,3, a última frequência utilizada pela Rádio Eldorado, alugada. As originais AM 700 e FM 92,9 foram vendidas pelo Grupo Estado
107,3, a última frequência utilizada pela Rádio Eldorado, alugada. As originais AM 700 e FM 92,9 foram vendidas pelo Grupo Estado

A decisão de retirar os integrantes da família Mesquita dos cargos executivos da empresa em 2003 foi, para a Eldorado, o início do fim e uma enorme falta de reconhecimento do que existia na emissora e de como aqueles resultados foram atingidos. Sem o João Lara, a emissora apenas sobreviveu, sem um rumo claro, sem a presença do ‘dono’, sem uma liderança para defender bons projetos e, principalmente, sem o aproveitamento do que existia para conquistar a essencial sustentabilidade econômica. Alguns bravos remanescentes mantiveram a qualidade em diferentes momentos da programação, remando contra uma maré que só poderia levar a um fim melancólico.


Como antecipava o Dr. Juca, e apesar de tudo o que a Eldorado produziu desde a estruturação na década de 80, o Grupo Estado não foi capaz de reconhecer valor ou encontrar um caminho para tornar rentável o que foi desenvolvido. Um sinal claro do que existiu na Eldorado por todos esses anos é a longa lista de grandes profissionais gerados dentro da emissora e que hoje ocupam posições de destaque por toda a mídia brasileira e no mundo corporativo. Era um ambiente profissional, estimulante e realizador, com grande potencial para continuar evoluindo e produzindo resultados.


Com o fim da Eldorado, a empresa repete o erro cometido quando encerrou o Jornal da Tarde, outra marca de peso, com estilo próprio, diferenciada e igualmente desperdiçada. Como errou ao remover da Agência Estado o Rodrigo Mesquita, um visionário que por meio da AE alavancou o Grupo Estado para a ponta da lança do que era importante em termos de Jornalismo moderno e atento à era digital, beneficiando o Grupo como um todo e em várias frentes. Faltou e falta ainda também esse reconhecimento.


Assim, após quase 70 anos, termina uma sequência em que se viu, nas últimas duas décadas, um verdadeiro e visível descaso com a Eldorado e tudo o que ela entregou a São Paulo e ao país. É mais um triste desperdício, por motivos que nem mesmo aqueles que apoiaram essas decisões seriam capazes de justificar de forma que faça algum sentido.


Pela parte que me cabe, foram nove anos em duas fases dedicados à Eldorado com muita satisfação, orgulho e a certeza de ter contribuído para o que foi realizado. Resta torcer para que o Grupo Estado seja capaz de levar adiante minimamente o que foi citado quando o encerramento da Eldorado foi anunciado: que novas iniciativas em outros formatos manteriam vivas a marca e a tradição, valorizando uma bela história de grandes contribuições. Que não sejam palavras vazias.


Em 12 de maio, dois dias antes da última transmissão da Eldorado, João Lara Mesquita concedeu entrevista bastante esclarecedora sobre a trajetória da Eldorado e o papel que ele mesmo desempenhou liderando o processo de modernização e as principais realizações da história da emissora. Confira no link abaixo:



*Adhemar Altieri, diretor executivo da MediaLink Comunicação Corporativa, chefiou o Jornalismo da Rádio Eldorado de 1982 a 1987 e de 1997 a 2001.  

 
 
 

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