Monforte, o santista...
por Adhemar Altieri*

Artigo publicado originalmente na edição de 08 de outubro de 2026 da newsletter 'Jornalistas & Cia', em homenagem ao jornalista Carlos Monforte, que faleceu em 31 de agosto de 2026
A recente perda do querido amigo e grande jornalista Carlos Monforte trouxe de volta a memória de um dia engraçado na velha redação da TV Globo de São Paulo, na Praça Marechal Deodoro. Lembranças que envolvem outros amigos e colegas de trabalho que já nos deixaram, e agora devem estar confabulando com o Monforte.
Era 1982 e ele apresentava o Bom Dia São Paulo, comandado por um grande craque do nosso jornalismo, Narciso Kalili. No esporte Juarez Soares e às vezes Fausto Silva, dando os primeiros passos na frente das câmeras. Na época, ele e o Juarez faziam o programa Balancê, que marcou época na antiga Rádio Excelsior, que depois virou CBN. Na produção do Balancê, outra excelente profissional e amiga, Yara Perez.
Eu, recém-chegado de vários anos vivendo fora do Brasil e atuando na mídia canadense e americana, trabalhava em portugues pela primeira vez na carreira. Fora do país eu já tinha experiencia com entradas ao vivo, e a Globo havia acabado de adquirir as primeiras Unidades Móveis, as UMs – peruas Veraneio prata com o plim-plim azul na porta. Em cima da perua, o que parecia uma espécie de garfo. Fechar link era uma tarefa e tanto. Impossível não lembrar das equipes nos radiocomunicadores, tentando apontar aquilo para torres na Avenida Paulista ou no Pico do Jaraguá: vai.. vai.. vai... para! Volta... volta... volta... passou! Aí! Fechou...

Monforte, nos tempos do Bom Dia São Paulo, foi um dos primeiros âncoras do telejornalismo brasileiro
Todos os dias, eu e outra grande figura que já nos vë do andar de cima, Afonso Monaco, saíamos para fazer pelo menos uma entrada ao vivo no BDSP. Se o link fechasse rápido, as vezes dava para fazer mais de uma. Naquele dia, minha pauta era entrevistar o recém-escolhido Rei Momo para o Carnaval de 1982. Por algum motivo que não me lembro, a entrevista foi marcada na frente do portão principal do Palmeiras na Rua Turiassú, que hoje, naquele trecho, se chama Rua Palestra Italia.
Ao lado do portão havia um grande emblema do Palmeiras – acredito que ainda está lá. Prato cheio para dois palmeirenses – eu, e um dos melhores cinegrafistas com que trabalhei, Newton Quillichini, aprontarem uma para o fanático santista Monforte e o sabidamente corintiano Juarez.
Chegou o Rei Momo e armamos a entrada ao vivo: quando o Monforte me chamasse, o Newton abriria no emblema do Palmeiras, enchendo a tela... aí, aos poucos abriria o foco para me enquadrar, com o entrevistado, bem embaixo do distintivo que permaneceu em cena durante toda a matéria. A possibilidade do Monforte e do Juarez não perceberem a armação era, claro, zero..

O portão principal do Palmeiras na Rua Turiassú - à direita, o distintivo que 'invadiu' a praia do santista Monforte durante o Bom Dia São Paulo
Assim foi feito, todos mal segurando a risada durante a entrada ao vivo, o Rei Momo tentando entender, afinal, o que havia de engraçado... e ao final da entrevista devolvemos para o estúdio com o tradicional “É com voce Monforte”. Ele agradeceu enquanto eu, o Newton e o Rei Momo assistíamos no monitor de retorno, agora todos rindo pois explicamos ao Momo a brincadeira.
Qual seria a reação? Claro que haveria, e ela veio ‘na lata’: Monforte, muito sério, vira para o Juarez e diz: “Sabe, o nosso cinegrafista Newton Quillichini tem que ser elogiado, pois ele conseguiu enquadrar o Adhemar e o Rei Momo na imagem, sem ter que atravessar a rua e sem usar uma lente especial”.
Aqui, cabe o contexto. Quando cheguei na Globo, a equipe de cinegrafistas era de altíssimo nível, cheia de gente muito experiente. Reynaldo Cabrera, Zé Martins, Marcão Gonçalves, Amauri Trolize, Aloísio, Canarinho, Júnior Maffezolli, Célio Braga, Quincas, Roald, Nestor e muitos outros, todos refinados profissionais, com várias grandes coberturas no currículo – copas do mundo, olimpíadas... Especialistas, com ajuda do ‘Seu João Paulada’, também em colocar apelidos nos repórteres. E o meu, assim que desembarquei do Canadá, passou a ser “guarda-roupas”. Alguns acrescentavam que era um guarda-roupas “com as portas abertas”. Quem me conhece já entendeu, eu sempre fui, digamos, robusto.

Eu nos tempo de 'guarda-roupas' em 1985, já fora da Rede Globo, ancorando um debate entre candidatos a prefeito de São Paulo, realizado em parceria entre a Rádio Eldorado e a TV Cultura
Dá para imaginar, então, a reação dentro da redação a nossa pegadinha com o santista Monforte e, depois, a réplica. Mais ainda quando voltamos da rua: mistura de gargalhadas e aplausos na redação, com sugestões do tipo “deveríamos fazer mais disso”.
Hoje, o BDSP reformulado tem como marca registrada um clima bem informal, conversado, com muitas entradas ao vivo graças aos avanços tecnológicos que permitem bem mais agilidade para fechar um link, seja do Globocop, das ruas ou de dentro de um carro de reportagem, sem o “vai.. vai.. vai” daquela época.
Se pudesse, hoje eu diria ao Monforte que vivendo no exterior naquele período, aprendi a importância daquele Santos que tinha Cejas, Ramos Delgado, Carlos Alberto, Clodoaldo, Lima, Afonsinho, Edú e principalmente o Rei Pelé. Eu era jovem, o Brasil em tempos de regime militar e o que se dizia do país nos principais veículos lá fora não era exatamente elogioso. Mas era só o Santos de Pelé aparecer para algum amistoso que o assunto Brasil mudava completamente de tom.

O Rei Pelé, entrando em campo para o amistoso em Toronto, quando marcaria seu milésimo gol vestindo a camisa do Santos
Com certeza o Monforte e outros santistas ficariam com água na boca, pois presenciei algo que qualquer santista gostaria de ter visto. Todos se lembram ou ouviram falar do milésimo gol do Pelé no Maracanã, de penalti, contra o Vasco. Poucos sabem que o milésimo gol de Pelé com a camisa do Santos foi marcado em Toronto, em jogo contra o Metros, e também foi de penalti. O gol foi anunciado no sistema de som do velho Varsity Stadium, que pertence à Universidade de Toronto, com todo o estádio aplaudindo de pé longamente.
Eu estava lá Monforte, mas tudo tem limite: fui ao jogo com a camisa do Palmeiras e uma bandeira do Brasil...
*Adhemar Altieri foi repórter da Rede Globo, diretor de jornalismo da Rádio Eldorado e de telejornais regionais do SBT, editor-chefe de telejornais da rede canadense CBC Newsworld International e de reportagens especiais da principal rede privada do país, a CTV News, e correspondente da americana CBS News e do Serviço Mundial da BBC de Londres. Ex-diretor de comunicação da UNICA, hoje é diretor executivo da MediaLink Comunicação Corporativa.





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