• Adhemar Altieri

Reorganização do ensino em São Paulo: Como fazer da limonada um limão...

Updated: Jun 10, 2018



ADHEMAR ALTIERI*

Publicado originalmente em 11/12/2015 no LinkedIn

Recentemente, durante mais uma irritante troca de insultos sobre a reorganização educacional paulista e os protestos dos estudantes, alguém escreveu em uma rede social que “o governador Geraldo Alckmin conseguiu transformar uma limonada em um limão”. Pena que o nome do autor era fictício, pois merecia ser creditado por essa frase.


O episódio produziu uma sequência de exemplos de como não agir por parte do governo paulista, que se comportou como se não houvesse uma batalha pela opinião pública a partir do momento em que começaram os protestos. Foi o inverso do que se viu do lado dos estudantes, apoiados que foram e continuam sendo por entidades, partidos e facções, que souberam explorar os buracos na estratégia – ou ausência dela, do governo.


A legitimidade do protesto dos estudantes é inegável, mas e muito difícil acreditar que estudantes secundaristas, sem o apoio de manifestantes experientes, em curto espaço de tempo ocuparam 200 escolas, organizaram protestos em pontos estratégicos, conseguiram ampla cobertura na mídia nacional, forte disseminação nas fundamentais redes sociais e para completar, atraíram bandas e artistas famosos para uma grande ‘virada’ de comemoração. Resultados profissionais.


Nos protestos, enquanto alguns ocupavam o meio da rua, outros tantos esperavam com seus celulares a previsível reação policial para gravar e compartilhar as imagens da truculência. Simples, a ponto de ser incompreensível a falta de tato do governo e da polícia, com sua imagem desgastada, para lidar com a situação de outras formas.


Surpreende a aparente ausência de compreensão pelo governo sobre o quanto é sensível o tema educação para toda a sociedade, sejam aqueles que utilizam o sistema público e conhecem de perto suas carências, ou os que pagam em dobro ou triplo, enviando seus filhos a escolas particulares.

Medidas que envolvam a educação são cobradas e aguardadas há tanto tempo que não podem ser implementadas sem planejamento e dialogo prévios, ou se tornam algo parecido com passar perto de um barril de pólvora com um isqueiro aceso.

O governo Alckmin falhou ao não tomar conhecimento dessa realidade, subitamente adotando medidas abrangentes sem envolver a sociedade em discussões detalhadas e significativas sobre o que pretendia. Errou novamente ao não abrir o diálogo de imediato quando surgiram os primeiros protestos e errou na forma como utilizou a polícia, imaginando, de forma simplista, que garantir o direito de ir e vir seria argumento suficiente para justificar o uso da força.


Errou ao não adequar suas ações a um protesto que, mesmo legitimo, estava nitidamente infiltrado e sendo utilizado com finalidades que nada tem a ver com a melhoria da educação. Mesmo que o momento político não fosse tão sensível, ações mal definidas e mal comunicadas produzem consequências negativas facilmente e rapidamente, para qualquer governante.



Imagem distribuída nas redes sociais pelo ‘Grupo de Apoio Incondicional ao Povo Brasileiro’

O governo paulista agiu como se não estivéssemos em um momento em que muitos adotam a postura do ‘vence quem grita mais alto’. Agindo como agiu, entregou de bandeja aos manifestantes a oportunidade de berrar.


Surpreendentemente, o governo acrescentou mais um erro ao cancelar a reorganização do ensino, no mesmo dia em que uma nova pesquisa apontava queda na popularidade do governador Alckmin para níveis historicamente baixos. Muitos, inclusive os principais veículos, associaram o recuo e a demissão do secretário da educação aos números negativos, como se um fosse consequência do outro. Mais pontos a favor dos manifestantes.


Fica aparente que também não houve uma avaliação adequada antes do recuo, pois até o fechamento deste texto os manifestantes continuavam ocupando escolas, impedindo a retomada das aulas, listando demandas adicionais e bloqueando vias públicas. Como se o fim da reorganização não tivesse sido anunciado e publicado no Diário Oficial há seis dias.


Em vez de buscar um clima favorável para as mudanças pretendidas, essa sequência de erros estratégicos sobre um tema sensível, que há muito tempo exige atenção e grandes correções de rumo por parte do poder público em todos os níveis, acabou gerando fortes incertezas e servindo para instigar um protesto ainda mais abrangente: sai de cena a reorganização, entra a má qualidade da educação como um todo. Prato cheio para um leque de oportunistas que rotineiramente aproveita oportunidades como esta para atacar oponentes políticos, no caso o governador Alckmin e sua administração.

Como resultado, uma iniciativa potencialmente positiva, que poderia ter sido recebida com apoio e cooperação, foi rejeitada antes mesmo de ser detalhada e adequadamente compreendida.

Explicações sobre como a reorganização funcionaria só vieram a público em pequenas pílulas após o início dos protestos, inclusive com anúncios na TV. Já era tarde demais, pois a visão dos críticos, de que a reorganização era apenas artificio para uma redução de custos e o fechamento de escolas, já estava enraizada. Assim, se fez da limonada um limão...


O episódio serve de alerta para qualquer grande ajuste que se pretenda introduzir na área educacional no futuro. Alerta também para o papel fundamental que a comunicação deve exercer em empresas, instituições e governos, não apenas em situações de crise mas, principalmente, antes que elas aconteçam. Um papel essencial e altamente estratégico, que deve ser exercido lado a lado com os principais tomadores de decisões, mas que em tempos de recessão e enxugamentos, muitas vezes acaba sendo relegado.


Sempre com riscos.



*Adhemar Altieri é jornalista com passagens pelo Grupo Estado (Rádio Eldorado), Redes Globo e SBT no Brasil, redes CTV e CBC no Canadá, CBS News dos Estados Unidos e BBC de Londres. Desde 2003 se dedica à comunicação corporativa, como diretor da UNICA, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar, do Instituto de Hospitalidade e da Amcham, a Câmara Americana de Comércio para o Brasil. É sócio e diretor executivo da MediaLink Comunicação Corporativa.


8 views

© 2018 MediaLink Corporate Communications